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Category: Literature

~ Micro conto: A Babá ~

A BABÁ

As férias de verão enfim haviam chegado, para muitos era o momento de festejar, curtir na praia, namorar, mas não para Amelia, que mal conseguia dormir pensando em todas as contas atrasadas. 

Sua mãe trabalhava em duas espeluncas mas não era o suficiente, portanto, vez ou outra Amelia arranjava um bico em algum restaurante ou coisa do tipo, e em sua busca desesperada por dinheiro, ela encontrou uma oferta boa demais para ser verdade.

No lugar mais barato da cidade, Amelia e sua amiga, Daria, comiam uma fatia de pizza, o queijo parecia mais uma borracha, mas era a opção mais barata. 

Indo ao banheiro ela viu um panfleto com uma oferta de emprego. 

“Precisa-se de babá. Urgente"  

Junto disso estava um número de telefone e o valor do pagamento, que era o suficiente para quitar todas as suas dívidas. Amelia arrancou o panfleto da parede e correu até Daria.

— Olha isso! — entregou o panfleto para sua amiga, com um brilho intenso em seus olhos escuros.

— Sei não, parece cilada. — Daria retrucou, curta e direta.

— Eu preciso da grana, dependendo de onde for, você me leva? — o desespero reverberava por sua voz.

— Claro, mas vamos ligar antes, ou melhor, mandar mensagem, né. — Daria ajustou seus óculos e as duas deixaram a lanchonete. 

Na casa de Daria, as duas enfim tentavam contato com o suposto número.

— Diz que esse número não tá no whatsapp... — Amelia disse em um tom decepcionado.

— Nada demais, é só uma baita de uma red flag! — na tentativa de fazer graça, Daria acabou piorando as coisas — Foi mal. Olha, liga pro número, e põe no viva-voz! 

Amelia então discou, após alguns segundos angustiantes, um homem atendeu.

— Olá, quem fala? — disse ele, sua voz era ríspida, como se fumasse uma carteira de cigarro por hora.

— É sobre o trabalho de babá... — Amelia respondeu, calma.

— Ah, sim, claro, a última menina ficou de aparecer e meu filho acabou ficando sozinho, você não deixaria meu filho sozinho, deixaria? — o homem soava irritado e triste ao mesmo tempo. 

— Não, claro que não! O panfleto diz que o senhor precisa com urgência. 

— Sim, irei sair com minha esposa, portanto preciso muito de alguém para cuidar de Lucius. Posso te falar o endereço? 

Daria olhou para Amelia de forma suspeita, como se não confiasse muito naquilo, mas Amelia não se importou. 

Com o endereço e horário anotados, ela finalmente poderia ajudar sua mãe, só bastava cuidar de um menino, o fato dele morar em uma região extremamente afastada era apenas um porém. 

— Vai ficar me devendo a gasolina, viu? — disse Daria. 

— Com essa grana vou pagar gasosa pro mês inteiro, então pode sossegar! — Amelia estava animada, até mesmo Daria, a garota mais ranzinza do universo, se sentia infectada pela animação de sua amiga. 

Em sua casa, Amelia vestiu suas melhores roupas antes de ir, além de fazer seu cabelo. 

Parecendo uma estrela dos anos 80, Amelia, com sua jaqueta rosa shock e seus jeans lavados, entrou no carro de Daria, a viagem seria longa, mas frutífera. 

— Põe aquele seu som, vai! — Amelia exclamou.

— Nem eu gosto daquela merda, e olha que fui eu que produzi tudo... — Daria nunca acreditava que alguém poderia gostar de suas músicas.

— Sick Sad World é bom demais, poxa. — ela sorriu. 

— Só você acredita nisso, mas tá bom, agora fecha o bico e aprecie minha voz, ou melhor dizendo, meus gritos! 

Com a banda de Daria servindo de trilha sonora, a viagem foi super agradável e rápida, no entanto, o sentimento de isolamento logo se apossou de Amelia. 

Ninguém costumava ir para aqueles cantos, era apenas estrada e mato, o tipo de lugar perfeito para um bom e velho filme de terror, de qualquer modo, não havia como voltar atrás, e ela realmente precisava do dinheiro. 

— Mas que surpresa, sem sinal de celular! — Daria brincou. 

— Pelo menos a casa é linda... — Amelia murmurou, criando coragem para sair do carro.

— Tô só brincando, ô! Daqui algumas horas eu volto pra te buscar, belezinha? Se precisar me liga do telefone fixo. — Daria tentou acalmá-la. 

Amelia concordou com a cabeça e saiu do carro.

A casa realmente era linda, apesar de pouco iluminada, o que fez a jovem caminhar lentamente até a porta, mas assim que bateu, logo foi atendida pelo casal. 

— Bem na hora! — disse o senhor com quem havia conversado mais cedo.

Para um rico, e possivelmente um psicopata, até que o senhor não era tão bizarro assim, seu terno parecia ser mais caro que a própria casa, e ele aparentava estar em ótimas condições físicas. 

Sua mulher, no entanto, chamava a atenção, só de olho ela parecia ser uns trinta anos mais jovem, usava roupas vulgares e possuía diversos enchimentos em seu corpo, era realmente desconfortável olhar para ela, mais ainda imaginar o casal fazendo qualquer coisa.

— Então, algo que eu deva saber sobre o Lucius? — perguntou Amelia, tentava não fazer contato visual com a mulher, mas era difícil. 

— Ele é um menino muito quieto, dificilmente fala, então não estranhe se ele passar a noite toda no quarto. Basta seguir os horários da dieta e deixar o prato em frente a sua porta, apenas isso. — explicou o senhor. 

— Vamos, docinho? — a mulher perguntou, fuzilando Amelia com os olhos. 

— Claro, claro. Bem, creio que vá se sair bem, boa noite! — disse o senhor. 

O casal entrou em seu carro de luxo e foram embora, deixando apenas Amelia e Lucius lá, isto é, se esse tal de Lucius fosse real mesmo.

Finalmente dentro da casa, ela ficou boquiaberta, a decoração vitoriana estava muito bem conservada, o chão de tacos escuros estava reluzente, e a geladeira, abarrotada de comida. 

Amelia agora se sentia idiota por ter tanto medo, e esse foi seu primeiro erro. 

Daria estava de volta na estrada, atenta como sempre, porém, nem mesmo um milagre poderia salvá-la do que estava para acontecer. 

Era o mesmo caminho de antes, apenas a estrada e mato, previsível, um tanto assustador, mas previsível. 

Exceto pela armadilha recém colocada na estrada, do tipo que a polícia usa para furar pneus de fugitivos, Daria não conseguiu nem reagir, seu carro capotou, a garota desmaiou na hora. 

Ao recobrar consciência, estava num completo breu, e pior, alguém lhe arrastava pelas pernas. 

— Acordou! — a pessoa que a arrastava gritou de forma estridente.

Daria conseguiu acertar um chute e se levantou, mesmo mancando, tentou correr, a figura então começou a rir, e atirou com uma escopeta em sua direção, atingindo parte de suas costas e sua nuca, apenas pedaços agora.

— Dormiu... — sussurrou, voltando a arrastar a jovem. 

A noite estava apenas começando, Amelia não tinha ideia do que estava por vir. 

Se acostumando com a casa, Amelia decidiu ligar para sua amiga, queria esfregar em sua cara o quanto estava errada sobre o trabalho, mas algo estranho aconteceu, ela não atendeu. 

“Ela deve estar ocupada, ou o celular descarregou, só isso, relaxa!”  — Amelia pensava, aos poucos o medo invadia sua mente. 

Quando deu o horário de Lucius comer, ela fez exatamente o que o casal pediu, mas havia um porém, sua dieta consistia apenas de carne crua. 

“Okay... Ricos são excêntricos e estranhos, certeza que isso é coisa de rico! Vou deixar o prato lá em cima e vou pedir uma pizza.”  — ela tentava ao máximo se convencer de que aquilo era normal, caso contrário, a ordem de despejo chegaria rapidinho. 

Assim que desceu as escadas, Amelia ouviu a porta do quarto abrindo e fechando rapidamente, o que de fato lhe dava certeza sobre a existência do garoto. 

Sua próxima refeição iria levar horas, então ela decidiu não pensar no assunto, pegou o telefone e ligou para sua pizzaria favorita, ou seja, a mais barata. 

Em cerca de meia hora, Amelia estaria saboreando sua pizza de quatro queijos, sem nem se importar com a bizarrice que poderia estar rolando naquela casa. 

Ao menos, era isso que ela pensava. 

Com a barriga querendo começar a roncar, Amelia ouviu um carro a distância, só podia ser sua pizza. 

Pronta para saciar sua fome com queijo processado, ela aguardou na porta, mas o comportamento do entregador logo lhe fez perder todo o apetite. 

— Me diga, mora sozinha? — perguntou, seus olhos estavam arregalados, olhando para cada canto da casa. 

— Não, e com todo respeito, cê tá chapado? — Amelia não queria demonstrar que estava morrendo de medo, o que ficou impossível quando reparou em seu uniforme. 

No escuro era dificílimo de enxergar, mas graças às luzes da casa, ela notou pequenas manchas de sangue no uniforme do entregador. 

Amelia, que já era branca feito neve, ficou pálida, trêmula, e imediatamente fechou a porta sem dizer nada, em seguida correu até a sala para pegar seu celular. 

Então, o que já estava bizarro atingiu seu ápice quando as luzes da casa se apagaram, impossibilitando Amelia de encontrar seu celular. 

Deitada no chão gelado, a jovem apenas ouviu o barulho de uma das janelas se quebrando, e passos pesados despedaçando os cacos de vidro. 

Mas não foi apenas isso, a porta do quarto também se abriu, seguido de um grito estrondoso. 

Com a mão tapando a boca, Amelia foi até lá na ponta dos pés, e o que viu foi uma das cenas mais inexplicáveis que qualquer par de olhos poderia testemunhar. 

Uma pequena criatura deformada, com chifres e pele acinzentada se alimentava do homem, o mesmo que havia matado Daria, e estava prestes a matar Amelia. 

Ao ver aquilo, seja lá o que fosse, mastigando um rosto humano como se fosse um bife, Amelia vomitou, fazendo a criatura voltar sua atenção à ela. 

Correndo de quatro em sua direção, a jovem conseguiu acertá-la com uma cadeira, e correu sem olhar para trás. 

Não dava para voltar e pegar a chave do carro, apenas correr até encontrar alguém ou despistar aquele bicho. 

Ironicamente, Amelia se deparou com um carro na estrada, quando percebeu quem era, já era muito tarde. 

O casal que havia a contratado tinha acabado de passar por cima dela com o carro. Ninguém poderia saber sobre Lucius, entretanto, ao chegar na casa, o mesmo já havia fugido, para sempre. 

— E agora, Megan? Não era a hora dele fugir... — ele suspirou, estava furioso — Assim que souberem, vão mandar seus agentes atrás de nós, aqueles peões idiotas de Ouroboros! 

— Sugiro que a gente dê o fora daqui o quanto antes, Hank. 

E assim o casal fez, qualquer coisa que ligasse-os a chacina daquela noite foi devidamente apagada. 

No outro dia, a polícia local não sabia nem como processar toda aquela bizarrice.

— Então, deixa eu ver se entendi, temos quatro corpos, um deles é do cara que vem aterrorizando o país por anos? Não só isso, mas a cara dele tá mastigada! — o xerife não sabia o que pensar, estava literalmente sem seu chapéu, apenas coçando a cabeça.

— É o que parece, senhor. — o policial também não sabia o que pensar.

— Sabe o que isso me lembra? Black Marble, aquela bomba não foi acidente, foi queima de arquivo... — explicou o xerife — Mas isso não é problema nosso, vamos só levar os corpos pro necrotério e aguardar os federais. 

— Claro, senhor. — o policial apenas concordou sem fazer muitas perguntas.

Um fim abrupto para um dos casos mais caóticos e inexplicáveis da história, sem motivos aparentes, ou informações sobre quem era o dono daquela casa, no entanto, um fato permanecia, a criatura agora estava a solta, e em breve faria um novo banho de sangue em alguma pobre cidade.

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