Portão branco
dei um grande passeio por sua boca hoje. escalei sua jugular até o grande portão branco, que logo se abriu quando avistou meu humilde barquinho. assim, naveguei em seu enorme lago. passei por ossos ancorados a caixões com pessoas sujas numa cor indescritível. durante o percurso, meu barco, que antes era branco, acabou por se tornar vermelho quase preto. mas não me importei. tinha chegado a uma caverninha tão escondida que quase não se via. entrei e me guardei. o tempo parecia não passar dentro da caverna. lembro de tentar sair e a pedra que me servia de porta não se mover. estava presa, então pensei na portinha que havia no teto da caverna. escalei e a empurrei com todas as minhas forças, até que, em algum momento, entre um segundo e o outro, eu já estava do lado de fora. meu barquinho ainda estava ali, coberto do líquido vermelho-escuro. entrei nele, mas ele não ia para lugar algum. estava grudado, completamente imóvel. me perguntei como uma água que apenas tinha uma cor diferente poderia deixar meu barquinho naquele estado, até eu perceber que não acontecia por causa da água, e sim por causa do tempo que passou ali. me joguei do topo da caverna e caí junto aos cadáveres que já moravam ali. me habituei e não saí mais. não lembro como era o lado de fora da caverna, nem qual seria meu nome, se é que tenho um. sou isso. talvez eu tenha morrido. e me encolhi por 368 noites.
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